Quando dois poetas se encontram os rios voltam a correr, torna-se outono primavera, folhas caem flores nascem. O frio sopra no ouvido e os cobertores voltam a aquecer na madrugada, o verão toma conta, faz suar no vermelho de uma taça.
Em uma dessas noites no meio, acordei e ela não estava ao meu lado. Investiguei à passos de meia silenciosos. Abri a porta do quarto devagar e visualizei a única luz acesa da casa. Tênue. Avancei sem respirar até postar-me ao lado da porta entre-aberta. Espiei e lá estava, em frente ao computador, descaradamente em transe. Inteira. Era poetisa. a sua identidade. Secreta. Descobri então. que apenas me usava durante o dia. Me sucitava doces delírios de cólera, sussurrava carinhos em minha alma, me entortava do avesso para se inspirar. E então à noite unicamente à noite, entregava-se. às palavras.
mistura de opostos
paradoxo de linhas
rios que correm paralelo
dentro do mesmo mar
corrente
forte
violenta
A menos que
mergulhe
no seu
interior
com óculos
de
escafandrista
verás
que
tudo é
paz
tudo é
calma
Tudo o que sei, e sei por verdade própria, é que depois de algum tempo juntos, ela passou a ser vogal e ele consoante. Quando sozinhos, não havia o verbo, não fazia mais sentido a palavra.
Até explicar que
gato não era escada
já havia caído no chão
(com as quatro patas)
Quando você
me expulsou
de sua casa
(parte úmida de mim
saiu por aquela porta para nunca mais voltar)
fiquei
(tão seco que apenas um sopro
é capaz de me quebrar)
triste(za é um acúmulo)
dosdias
dasnoites
preciso parar
de achar
que
O que vejo
são (só) especulações
que invento pra me nutrir
no fundo
sou (só) um parasita
das imagens que projeto
O pior
dos últimos
dez minutos
é que você
sempre
acha
que neles
não cabem
mais nada
Prefiro andar sozinho nos campos de cebola no lugar de sorrir em companhia de alguém preso às suas vestes.
delicados
são teus lábios
que me acordam
no meio da noite
pra sonhar
entre estátuas
num tabuleiro
de xadrez
novamente
estou só
não vou mais
deixar
você colocar Continue lendo →
um balde em
minha cabeça
e bater
Nasci numa civilização gripada. Nos arrastamos amortizando os sintomas. Perdi o contato com a terra, perdi o caminho do sagrado. Ao querer um atalho para a alma virtuei-me no caminho da não existência. Um endereço um código.
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Decidiu que seria sábio, como num clique fotográfico de máquina digital .Revelação instantânea: estava sábio. Olhou para a vida de cima, de baixo de frente, de trás. Tudo de uma vez. E manteve esse olhar. Não é que tudo fazia sentido. Mas tudo era apenas o que era. Nada além, mais ou menos. E não era mais ou menos. Era exato em toda imprecisão. Ao tornar-se sábio, o coração parou. de doer.
ainda agora
engoli a saudade
com ações futuras
provas de amor